segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Assim Morreu Uma Teia.

Perdi mais um encontro. Mais uma noite na qual não estive lá e mais um pouco estiquei. Lá já não faz sentido. Perdi o que era de tanto que quis o que chegou, sofri por perder, mas foi tão lento que pouco percebi que sofria por estar perdendo. Foi por desleixo, morreu. E como tudo o mais que morre por aí, morreu. Afinal sempre dizem que tudo tem um fim, pois não esperava que o fim se desse tão rápido. É claro que não foi só morte matada, hei de me consolar por saber que foi um tanto morrida. Morreu porque não se cuidou, teve também doença grave, e não procurou cura. Parte de si foi embora, a outra se enrolou em outro, mas o que nem viu que morria foi o que ficou. Ficaram, alguns ficaram, e nem viram que eram parte de um cadáver, já haviam se espalhado e não mais viviam daquele só corpo. Senti que morreu só depois de constatar que novamente não fui ao encontro, logo após ter rompido com aquele que também nos matava, e segundos depois de ver que tudo se romperia. Nada é para sempre, principalmente teias exageradamente complexas e propensas a ataques externos e males que nascem por dentro. Tudo se parte, separa, chora, rompe, e morre. Chorei como quando era repreendido por querer saciar minha sede do que viria, e chorei porque sabia que aquelas lágrimas não eram só pelo imediato passado, mas pelo futuro mórbido e pelo fim já esperado. Assim morreu uma teia. Uma teia cheia de falhas, mas forte para aguentar muita coisa. Há de se notar que a teia não sobreviveria a qualquer distanciamento de seus nós e isso só se percebeu quando ela já estava quase se partindo. A teia esticou, esticou, esticou e rompeu. Morreu de tanto que foi esgarçada, de tanto que foi testada, de tanto que já não se aguentava. É claro que cada um de seus fios não esqueceu-se do outro. Sabemos todos que existimos e lá no menor milímetro de nossos diâmetros desejamos refazer aquilo que nos unia. Sabemos, porém, que somos agora incompatíveis. Não sou mais um azul disfarçado de branco, ele não mais um vermelho de branco, agora tiramos nossas vestes e nos expomos para todos que quiserem olhar. Não temos mais vergonha de mostrar o quanto nos prendem nossos nós, não tenho mais medo de dizer que me incomoda estar presa em um corpo que se desfalece. Mais triste é ver que há aquele fio que não olha mais pra mim, logo aquele fio que me era tão grudado, logo aquele fio que tanto me fez bem. Ele e um intruso qualquer iam desfazendo o nosso nó devagarzinho, sem que eu percebesse e eu bem que tentei mante-lo.Foi em vão e no fim fui eu quem teve que corta-lo. Eu ouso dizer que os outros fios ainda gostam de mim, mas temo por eles não mais me olharem nu, como sou. Temo por amanhã eu mal ve-los de tão distantes, e de que nós todos nos ceguemos por novos nós que fazemos. Mantenho distância entre os nós daquele tempo e os que hoje me encantam, tento não criar atritos, principalmente dentro de mim mesmo. Crio novas teias e não mais choro a que se desfez, já mais uma desfeita em minha longa enrolação. Assim morreu uma teia, assim nascem novas.

Resolvi postar também algumas preferências pessoais. Dar uma cor.

Toulouse-Lautrec.

Espero que seja boa essa invenção.

Quanto aos textos, os mesmos, continuo escrevendo para sempre me ler. É prazeroso.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Yemen?!

Apenas uma pequena conclusão.
Yemen, em dois. Republica Popular Democratica do Yemen e Republica Arabe do Yemen.
Socialista, tornou lei a igualdade entre os gêneros. Defendeu e tornou lei o fim da poligamia, possibilitou o pedido de divórcio pela mulher, possilitou que a guarda de um filho seja da mãe, retirou a obrigação da burca, proibiu casamentos arranjados pela família, estabeleceu 16 anos como idade mínima para casamento para mulheres, estabeleceu 20 anos como a maior diferença de idade possivel entre os noivos. Além, iniciava sua constituição com pelo povo, para o povo, pela justiça social. Defendeu o livre credo. Uma sociedade islamica. E marxista. Que politicamente pouco ligava pra diretrizes soviéticas e pregava um socialismo científico adaptado as peculiaridades do Yemen, principalmente, adaptado ao fervor religioso de seu povo. Infelizmente, entregou aos soviéticos a exploração de todo o seu petróleo e passou por uma guerra civil em 86, resultado de uma disputa intra-partido. Afundou economicamente.
Capitalista, lei Sharia é a base de todas as leis. E, assim, burca, poligamia, mulheres que sofrem abusos, mulheres fora das escolas, do trabalho. Mães sem seus filhos, meninas casadas com homens com idade para serem seus avós, mulheres e meninas casadas pela vontade do pai. A constituição, para Deus, por Deus, pelo cumprimento dos desejos de Alá. Americanos interessados em explorar seu petróleo. Uma república autoritária com apoio saudita e confidente iraquiana. Prosperidade economica.
Presidente do norte capitalista se sobrepoe a força política do sul. O sul não tem com o que barganhar, se conflitasse, perderia. Unificação, sobreposição do regime capitalista. Lei Sharia é a principal fonte da lei, de volta as velhas tradições islâmicas. Bom, liberdade de imprensa e livre associação em partidos políticos. As mulheres de Aden não fazem parte disso, reclamam do retrocesso de seu antigo governo e igualdade, liberdade para um no qual a liberdade e igualdade não se extendem a elas. Para Deus, mas para o povo também. Liberdade e sua via de mão dupla. Partido político fundamentalista islamico, burca nelas! Não só burca, mas bombas também. Bombas no partido socialista, secularistas! Poligamia e mulheres em casa com seus senhores caquéticos arranjados, e fora os ateus que querem justiça social!
República (capitalista) do Yemen.
Conflito. Em Aden, as mulheres vão de um país que defende a secularização, mas também a liberdade de credo ( e há judeus, cristãos e hindus no Yemen!) para um que tem como base da constituição a Lei Sharia e ainda, de brinde, islamicos fanaticos que lutam pelo encarceramento da mulher em quatro paredes e panos e jogam bombas naqueles mesmos americanos que os colocaram onde eles hoje estão em nome de Deus.
Concluo que esse mundo é mesmo muito louco. Se eu fosse uma yemenita do sul teria desejado que os EUA fossem comunistas e explorassem o meu petróleo, ou que a URSS nunca tivesse acabado e tivesse explorado o tal petróleo direito. Talvez desejasse algo mais sensato, que meu país tivesse tido força economica, política e militar para se manter socialista e que hoje fosse a Cuba do Oriente Médio.
Havia esperança! Ainda há, em meio à guerra contra o terror em uma bipolaridade entre fanáticos islâmicos e fanáticos capitalistas, um lugar para a esquerda legítima ?

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Boa noite.

Por ter estado tanto tempo longe tenho hoje vontade de voltar. Desperto ao ler o que já não lia a muito tempo, sinto que o que passou na verdade ainda vive e merece minha atenção. Nem sei mais usar palavras nessa nossa lingua gostosa de ser escrita, agora vivo de leituras corridas e cumprimento de prazos. A regra é ler sem prazer, pra que se possa ler. Uma hipocrisia. Gostaria sempre de dissecar cada palavra de autores mais próximos do que tantos outros que li, mas não me é permitido. Engulo informações em um idioma seco, sem graça, sem poder sequer pensar nas belas palavras que essa minha lingua tem. Ler, correr, resumir, entender. Não são verbos tão amigos, inclusive me cansa ter que uni-los. As palavras hoje já são de realidade, não são mais minhas fantasias em livros que tanto procurei. As palavras querem provar uma ideia, querem se auto-defender e não se importam com o que eu penso delas. Absurdo, sempre li aquilo que me permitia indagar, refutar, amar. São tantas teses apresentadas, tantos argumentos e hipoteses que eu só gostaria de ter um momento de ilusão. Sempre li para prever o futuro, ou entender o passado. Li para me deliciar, para me imaginar, para te imaginar em um te que sempre variava. Agora leio paragrafos que se repetem como se a repetição fosse provar alguma coisa. Leio pra sugar tudo aquilo que o autor me permite e ir além dele somente se solicitado.
A cada palavra dita por aquele que lá da frente não me olha, imagino como seria se eu pudesse dizer o que penso disso tudo. Ouvimos dizer que o internacionalismo liberal foi a infancia das relações internacionais, quero dizer então que o realismo foi a adolescencia rebelde. Mas, me contento em anotar, em sugar, em compreender. As vezes, porém, certo luxo me é permitido, posso estender a corda. Indago, vou além e provoco toda aquela ideia tão fechada e organizada.
Gostaria de ter tempo pra ler mais, além do demais que já leio. Gostaria de ter folego pra escrever, gasto-o todo sentada em uma cadeira assistindo e participando do teatro das infindáveis críticas.
Quero o luxo de não criticar, mas de imaginar. Quero o pecado de saborear páginas para além do que elas me oferecem. Volto orgulhosa, mas insatisfeita de ter ido embora para ter que voltar.
Andei lendo outras coisas além das narrações históricas e defesas de teses, mas errei nas escolhas e não fui muito longe. Li um drama que me fez entrar na história, história essa que infelizmente foi realidade. Tenho lido tantas desgraças, tantos massacres, tanta mutilação, morte, tortura, que as vezes penso por que continuo lendo, sabendo que o que leio já passou e o agora ainda não foi escrito.
É prazeroso para mim estar tentando de novo. Espero que não mais me ausente, espero que tudo o que leio não me tire o desejo de ser sempre lida.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Às Aulas.

Deveria eu estar nessa abstracao? Estou sentado em uma cadeira, há um chao abaixo de mim e a noite lá fora. Quem é esse homem que tanto fala, o que ele quer de mim? Confesso que sei que nada ao meu redor é realidade, mas também sei que nao é minha imaginacao. Nao tenho paciencia para ouvir esse homem, nem essa garota, nem minha própria cabeca gritando por uma forma geométrica. Um, duas, tantos, quem sao? Jamais serao, sequer foram, me é dito que é tudo construído e eu quero ter sido natural. Nao me interessa saber por que sou se a razao é tao externa a todos nós, e ao mesmo tempo tao interna. Saber o tudo pra nao entender nada. De que adianta tanta loucura se há apenas o precipício? Nunca chegar ao final, cansar-se da vida, mas nunca achar-se pleno dela. Nao me cansaria da vida, também nao estaria pleno dela, nao vou engolir que isso é o final. Abismo, frustracoes, nao há verdades. Nao preciso de verdades, preciso de perguntas, por favor caro homem que tanto fala, deixe minhas perguntas sem respostas. Estou feliz com minha ignorancia e nao busco mais do que eu posso aguentar. Conceitos, ideias, críticas. Adquirir o mundo e contruir-se sem ser o sujeito da própria construcao. Construir o mundo que será entao adquirido. Nao é natural, nada é natural. Espera, somos animais e eu nao vou acreditar no que esse homem diz, é biológico, é instinto. Ele estar ali falando nao é instinto, eu aqui ouvindo muito menos. Deveria seguir mais meus instintos. Nao ter em que acreditar por ter destruído tudo aquilo que eu senti. Nao quero tantas análises, repudio tantas generalizacoes, o mundo nao é tao transparente. Acharmo-nos responsáveis por tudo que há é no mínimo presuncao. Inventaram o mundo real, complicaram, criaram controles. Agora, é hora de desinventar, desconstruir, descontrolar, desencantar. Deixe meu mundo encantado, ele me é tao mais prazeroso. Já bastam minhas frustracoes que acredito serem reais, nao me imponha mais. O homem é o único animal religioso, também é o único que briga com esse fato. Aliás, nao há fatos, é tudo interpretado. Entao, pra que viver? Nao sei o que faco com o que escuto, nao entendo, nao quero entender, me acho feliz. E pleno. Esse homem me incomoda, me dá nauseas, me faz querer ficar com as tais lentes. Se eu visse o mundo assim tao feio nao veria graca em viver. E considera-se que eu seja pessimista... Chega, abstenho-me dessa discussao. Deixo meu mundo encantado e construído. Meu envolvimento social vai permanecer duplo sem que eu saiba que o é. Ignoro, e isso me dá muito mais prazer. Cansei de tentar abstrair.É essa a minha realidade.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Trágico.

Se eu não fosse eu, quem eu seria? Um desvio no meu caminho e outro estágio. Aqueles que prevaleceram me garantiram toda essa calmaria, sinto saudade do desespero. Vá por aqui, não por ali, dizia minha mãe. O professor também falava, mas ele eu desobedecia, era mais divertido. Encantei-me com um mundo que me satisfez, mas não me prendeu. Era tanta sedução, tanto engano, amargas manhãs de palco, doces noites de espetáculo. Pena que não me segurou. Se eu não estivesse onde estava na vida paralela que eu levava, teria chegado a outro lugar e jamais teria me desfeito das máscaras. Noites borradas, cheiro de alcool, novidade. Quando acabou eu sabia que viveria um certo tédio, mas eu escolhi o tédio e não a tentação. Boa escolha, a longo prazo. Sabe, uma das máscaras que eu achei me servia tão bem. Encaixava com o meu passado e era o perfeito estado presente para o futuro desenhado. Usei-a durante muito tempo, demais para quem comigo esteve, de menos para quem comigo só se divertiu. Para mim, no ponto. Às vezes gostaria de sentir tudo de novo, de por a máscara e sair pro palco. Mas, as pessoas que eu reneguei não me querem mais, certas elas. Acho que fui muito puritana, ridícula. Quem era eu pra dizer quem eles eram. É que minha mãe me disse que eles eram isso, eu só repeti. Mamãe está sempre certa, não devo discutir. Até hoje, sobre os outros, não errou uma. Mães, professores, pais. Eles sempre se confundiram na minha cabeça e eu sempre tive o prazer de desobedecer. Quem sabe não quis impressionar um por não saber que ele era? Papai, li o livro todo, oh papai, aprendi direitinho. Caro professor, não li o livro, não sei do que se trata. O prazer que isso me dava. Era uma criança querendo ser grande, sempre fui.
Agora já não sei mais o que me dará tanto prazer, fui privada do palco, esconderam as máscaras, meu professor não liga mais pra mim. Meus pais não querem saber se li o livro ou não. Acabou a diversão.

domingo, 19 de abril de 2009

De Volta.

Voltar e viver tudo de novo. Não quero mais isso pra mim, por favor, não. Chega disso, eu fugi e queria retornar sem você aqui. Maldito você, está aqui. Tudo volta, um redemoinho em minha cabeça, um aperto no meu peito. A dor que me traz. Essas ruas, essas paredes, minhas lágrimas. Não sei o quanto vou aguentar depois do alívio que tive. Apesar de você eu cheguei lá. Orgulho por ter aguentado, desgosto por ainda não saber lidar. Será que é você, me arrepio, meu coração acelera, suo frio, há tanto tempo... Uma doença, uma memória que não vai. Talvez a culpa seja minha, eu sou o fraco que não consegue superar. Mas é tão difícil. Eu ainda estou aqui, e tudo o que o ontem deixou. Medo, curvo minhas costas. Em poucos segundos tudo se esvai e a tristeza volta. Onde estive? No paraíso, talvez. Nenhuma dor minha é igual a esse maldito aperto. Vazio, insegurança. Se estive lá eu quero voltar. Prefiro o sufoco das noites solitárias do que essa maldita volta ao passado. Vai embora, e não volta jamais. Vou aprender a me livrar de você, cansei do seu fantasma, chega de ser uma longa história que explica metade da minha existência.
Eu sou mais, bem mais, mais do que isso, mais do que você.
Um quarto que foi meu, que sempre será. Memórias minhas, alegrias, tristezas. Estou de volta, estou de volta sorrindo por saber que é temporário. Confesso que às vezes o conforto vem, a vontade de desistir surge, mas não é suficiente. Não é maior que meu amor, não é maior que meu futuro, não chega perto do prazer da novidade. Aqui só tenho memórias, tantas ruins. Aqui tenho laços, mas tenho também obsessões. O mal que me faz some com a distância, o bem não. Parti pra me ver livre de todo o mal, sei que o que é de bem permanece sem condições. Esse quarto tem vida mesmo quando eu nele não estou, e isso me assusta tanto quanto me conforta.
Os quadros na parede trazem tudo o que eu pensei sobre eles, as telas, tudo o que me fez mal e que senti. O mapa eu queria levar comigo. Ele foi o que me fez tentar sair. Olhando para o mundo lembro que sou ínfimo comparado à infinidade de vidas que existem por aí. Meu pedaço de mundo é muito pequeno e já é demais pra mim. Minhas ideias não são nada, nem meu passado, nem meu futuro.
Volto para saber o que stou perdendo. Volto para dar mais valor pro que conquistei. Volto, por ir embora e ter mais.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Caminhando.

Nunca fiquei tanto tempo com meus pensamentos. Vejo-os entao, finalmente, como realmente sao. Inquieto, ansioso, indeciso, afobado, desastrado. Tantas novas definicoes pro que eu achava já estar definido. O que eu sonhei aconteceu, mas acontecer nao é tao bom quanto sonhar. O que nem imginava virou sonho de tao bom que foi realizar. Cá estou eu, com medo de onde já cheguei, querendo saber se há mais, insatisfeito com uns, superado por outros. Esperava muito, mas nao tanto quanto é de verdade. Será que me iludo? Talvez esteja cego, talvez queira acreditar que é mais do que é pra nao desistir. Mas, se nao fosse tao bom, nao teria esse gosto de realizacao. Quando eu chegar lá. Quando chegar. Já nao vou mais querer lá estar. Fecho os olhos e peco pra voltar, fecho os olhos e agradeco por estar. Sim, saudade, mas felicidade também. Achei um bom amor, um bom amante. Nem procurava, mas achei. Nao há nada mais que eu possa querer. Venho caminhando devagar, vendo a rua que passa, lembrando de quando aquela rua nao me pertecia. Já nao sei se agora pertence. O que mais eu quero? Eu andando e me dizendo que aqui estou, nao era isso que eu queria? No final o por que de eu ter vindo nao é mais o que eu achava que seria, mais vim por ele do que pelo novo. Ele. Há uns meses eu nem sabia que assim seria, mas foi. E nessa de ser sem eu ter esperado sou surpreendido por mais uma placa que me manda parar de imaginar. Andei com meus pensamentos, nao com a minha imaginacao. Andei pensando. Nao imaginei andando. Uma vitória para mim, reconhecer que nao devo mais imaginar. Ele nao foi imaginado, aliás, o fracasso foi. Imaginei que nao daria certo. Deu. E o que imaginei ser perfeito nao foi. O que me abstive de imaginar foi bastante empolgante. Que maravilha, quem sabe um dia eu consiga dar adeus a toda essa imaginacao pedante. Estou chegando na casa, nao em casa. Em casa por enquanto nao chegarei. Minha casa é um alguém.
Abrem a porta e nao vejo quem esperava ver, tenho que me acostumar com isso. Espero o dia em que eu abra a porta, ou o que eu volte a ver quem faz da casa, lar.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Ensaio Sobre Um Eu.

Sou eu por que sou dois. Sou, o que fui serei, não quero ser quem já fui. Por ser dois quem sou me é elegível, torna-se mutável. Dentro de um não mudo, minhas mudanças são de lado. Quando atravesso, não sei quem sou e, portanto prefiro pular. De um lado, para outro lado. Nem todos me esperam dos dois lados, alguns nem sabem que dois lados têm. Gosto dos que não deixam um lado pesar mais. Gosto dos que sabem o que sou. Gosto de fingir que sou um, de mostrar que sou mais. Gosto, não gosto, me calo, odeio. Não sei se te quero ou se te amo, amo quem me ama lá e cá, você ama? Não ame por querer unir, mas por saber amar. Amo-te. Quando o amor é assim somam-se dois e dois, acham-se três. Três por que cada um é o que é, sem abrir mão do que não é. Têm-se todos os lados, somados, plenos. Se se somam quatro, não é amor. Soma-se um, é dependência, faz mal. Pergunte qual é a minha verdade, não sei que horas são, respondo uma, depois outra. Na metade troquei, no final recomecei. Até mesmo minha memória não mistura, memória de elefante, péssima memória. O que fiz ontem posso não ter feito e nem querer fazer o que farei amanhã. Fusão confusa. Funciona, às vezes não. Se se misturam geram desespero, angustia, arrependimento de um, orgulho do outro. Apenas escolho. Sou, não sou. Quem sou?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

(ansie)(sau)dade.

Suspiro de saudade e um calafrio. Olha, lá vem o Novo. Seja bem-vindo, eu já gostei de voce antes de te conhecer. Confesso que agora que voce está se aproximando meu coracão vai acelerando. Meus olhos estao um pouco úmidos, mas não vou chorar. Oh, não é medo, de maneira nenhuma. É pavor. Não de voce, querida Novidade, mas da forca que voce pode ter, do ciúme que tem. Eu sei, não precisa mentir, nenhum Novo gosta do Velho. Todos voces, adjetivos, são ciumentos, e não pouco. Ameacadoramente ciumentos. O Velho vai me atormentar todos os dias, vai me encher de perguntas, enquanto voce, Novo, vai me puxar pelo braco e me encher de risadas até eu parar de responder ao Velho. Vai ser assim até voces acharem um meio termo, um vai aceitar ser meu amigo, o outro minha paixão. Ou até um dos dois me convencer de que é melhor do que o outro, e me fazer escolher. Novo, Velho, por favor, convivam! Enquanto voces ainda não se encontram eu me contento com o Transicão, tão mais calmo, diria até entediante. Transicão, um affair, nada sério. Um passatempo, Transicão, sinto muito mas voce não desperta em mim nenhum sentimento se não aquele que me faz lembrar o Velho ou pensar no Novo. Maldita Transicão, nem sei por que dizem que voce é tão necessário e que vale a pena te dar uma chance. Eu preferia ter ido de um amor ao outro, não me agrada o que voce me traz. Ah, Tempo, o Deus do Novo e do Velho, e até da Transicão, escuta minhas preces e desliza enquanto o Novo não se declara. Tempo, por que passaste assim, quando o Velho ainda era meu amor? Sabe, não sou do tipo que gosta de um amor rotineiro, e o Velho já não cabia mais. Não nego, seria feliz com o Velho eternamente, ele me conhece, sabe do que gosto, mas quando eu já fosse também parte do Velho, veria que deveria ter me aventurado quando o Novo piscou para mim. Já vi tanta gente que carrega o Velho em suas costas, que diz que é feliz, mas que não poe o pé fora da calcada, muito menos a vida fora do eixo. Agora, é tão fácil reconhecer quem acabou de conhecer o Novo. Eles tem um olhar diferente, meio assustado, meio desafiador, e tão brilhante. O Novo me dá brilho nos olhos.
Olho pro espelho, o Velho logo atrás de mim, triste. Mas em meus olhos já vejo o Novo, e vem o calafrio, uma epifania que pensar no Novo me traz. Vem então a saudade, melhor e pior sentimento que o Velho me deixa. Suspiro, pelo que vem, pelo que foi. Saudade, calafrio.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Sono.

Dormir transforma tudo em passado. O que era recente torna-se distante. Ainda se pode retornar antes que se fechem os olhos, mas, quando abertos, é impossível voltar. Ela estava deitada ao meu lado, olhos bem abertos, sorriso cansado. Piscava lentamente sempre que meus dedos chegavam às pontas dos seus cabelos. Eu nao cansava de dizer que a amava, que ela era linda. Ela me interrompia e, efusiva, falava em casamento. Planejava o futuro, dava nome aos nossos filhos, decorava a casa, escolhia a raça do cachorro. Aquilo me cansava. Nao que eu nao quissese aquele futuro, mas minha ansiedade pelo presente se chocava com sua pressa em viver o que ainda viria. Eu sabia que ela seria minha mulher, que envelheceríamos juntos, nos amaríamos para sempre. Nao entendia, porém, a necessidade que ela tinha de saber o amanha se o hoje nao havia terminado. Falou da lua-de-mel, das férias na Disney com as crianças, da casa de campo. Era inútil tentar traze-la para mim, para aquele instante.Eu sentia ciúmes do meu eu futuro que ocupava seus pensamentos. A queria agora, nao na esperança de um futuro distante. Desisti, fui ao banheiro. Interrompi-a. Ela calou-se, zangada, ela detesta ser interrompida, principalmente em seus devaneios ansiosos. Quando voltei para cama, ela dormia. Nem notou meu retorno, ela provavelmente sonhava comigo dali a vinte anos.Fiquei calado admirando minha menina. Em seu sono ela parecia serena, presente. Somente enquanto dormia ela me permitia te-la plenamente, presentemente. Adormeci com o rosto acima do seu, sem tocá-la. Por que dormi? Ao abrir os olhos ela nao estava mais sob o meu olhar, seu corpo nao estava ao meu lado, a cama esfriara.Desesperado, gritei por ela, procurei a roupa da noite que terminara. A casa estava vazia, eu estava sozinho, eu nao soubera amá-la como ela queria ser amada. Sob a mesa, apenas um recado. Nao deveria ter dormido, deveria ter acompanhado seus pensamentos, deveria ter pedido desculpa por nao ter ido ao futuro com ela. Perdi-a.O futuro que ela desenhava será agora de outro, de um que nao tenha ciúmes de si mesmo, que nao se apegue ao presente.Seu futuro era agora meu passado. Por que fechei os olhos?Descuidado. Dormir transformou tudo em passado.O que era vivo adormeceu, o calor do contato tornou-se a fria saudade. Com meus olhos abertos, sei que nao posso retornar e te-la de volta. Nem sei se sonhava, ou se sao apenas memórias. Antes fosse sonho, sonharia de novo. Fiquei preso ao passado, ao futuro que nao virá.Vou ao banheiro. Adormeço.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Eu-lírico.

Andando em uma rua deserta, talvez lotada, ela sorri pra mim. Ela tropeca, ri, chora. Entra num café, senta e pede um expresso, dois, aliás. Muitos homens olham para ela, também pudera, ela é deslumbrante. Mesmo meio bêbada, com a maquiagem borrada, cheia de lágrimas no rosto, ela é linda, e o mundo se ajoelha aos seus pés. Não sei onde ela quer chegar, talvez nem ela saiba. Vagueia meio sem rumo, e para, de quando em vez senta no chão e olha as estrelas. Mal sabe ela que eu sei de tudo, sei por que chora, sei por que ri. Quem a ama a deixou mais uma vez, ela não sabe amar, nunca soube. Estaria sozinha, se não fosse por mim. Mas ela é tão bela, leva uma vida tão gostosa, e por isso ela ri. Mais uma vez ela se levanta, e sem tomar o café, segue atenta. Entra em um prédio qualquer, sobe, vai até uma festa. Todos a olham, sua presenca é incômoda para elas, insuportável para eles. Beija o mesmo homem, ri da sua cara, ri de si mesma.Pega uma taca, bebe, chora na janela, sempre olhando as estrelas. Vai embora, e eu não me canso de narrar seu caminho, sempre tão indiferente, sempre tão inútil. Não sei o que tanto me fascina nessa mulher, talvez sua certeza de que eu estou aqui. Enquanto ninguém me nota, ela me encara horas a fundo. Só eu sei quem ela é, só ela sabe que eu existo. Quando a conheci ela era apenas uma menina, se olhando no espelho, sem saber o que a levara até ali. Naquele tempo ela ainda questionava minha presenca, não gostava de olhar para mim, gritava quando eu falava ao seu ouvido. Mas ela não se afastou, quis me deixar vê-la crescer, vê-la mudar. Eu a vi usar seus grandes saltos vermelhos, seus tênis modestos, seus chinelos de plástico. Vi-a apaixonar-se, entregar-se, sofrer. Muitas vezes em meus bracos a tive, muitas vezes vi o que era tê-la de verdade. Ela jamais me negou um beijo, jamais me negou uma noite. Tive que vê-la com outros, porém, e muito sofri, não minto. Ela nunca me amou como eu quis que amasse, mas nunca fui capaz de cobrar isso dela. Preferi uma amizade, um amor paternal meio louco do que nada. Sei que um dia porém, ela irá me amar, do jeito que eu a amei, e aí então seremos completos, aliás, ela será, eu já o sou desde que a vi pela primeira vez. Juro que não sou patético, é só amor. Melhor te-la sem que ela me ame, do que nao te-la de jeito nenhum. Sou quem sou por que ela é, se ela nao fosse, nao seria.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Relicário.

Olha, o infinito reduzido a essa noite, trocar a eternidade por ela. Só de abaixar os olhos some o pensamento. Quanta ganância, querer usar o que é concreto (apesar de maleável) para descrever o que nem explicável é. Quero sempre acreditar que cada pontinho desses é um alguém que se foi e deixou quem se fez amado.A luz ofusca o brilho das estrelas, mais uma pretensão do homem que despreza o obvio, tão oculto para os insensíveis. Dizer tanto é só pra tentar dizer o que me leva a pensar no tempo. Estou mais uma vez aqui, apaixonada por essa vida, tão mais bela e complexa que minhas tolas palavras.
Lá se vai o tempo, indiferente. Não foi ontem que eu nasci, nem quero amanha morrer. O ano è passado, esse è presente, e o que mudou?Ainda sou a mesma, você, não sei. O que na verdade mudou já não é tão novidade, mas ainda não consolidou tamanha mudança. Logo em uma tão grande transição, a transição é imperceptível. Sete ondas, e lá se vai o passado. Ouço os fogos, parecem ser a explosão de tudo o que aconteceu. Enquanto brilham as luzes vejo todos os meus destinatários, tudo o que senti, choro o que já foi chorado. E então vem o silencio, no meu peito a satisfação, a certeza de que o ontem acabou. Sete ondas, e agora vem o futuro. Não quero desejar mais as mesmas coisas, mas nada tenho a desejar se não que as transições se concluam, e que eu saiba lidar com mais uma grande partida. Quero mesmo é não ter medo do que vem. Meu inferno anterior, já não mais o vejo, largo os espinhos, não quero mais causar dor. Tinha que tocar justo essa, canto com a verdade de quem o que canta viveu. Se você trouxer o seu lar, eu vou cuidar, do seu jantar, do céu e do mar, ainda, de você e de mim. Dessa vez, o ano que nasce traz uma nova vida, minha chance de, se não ser outra, fazer diferente. Ah, assim seja, tudo mudar. Claro que eu não desgosto de quem sou agora, nem do que me permite a vida, mas entenda, minha ansiedade me faz pedir mais. Rendo-me a essa maldita expectativa de poder zerar o jogo, ansiosa, deixo o futuro reger o hoje. Guardo a esperança de vencer meu vazio, a vontade de saber quem sou, certa de mim. O hoje não é mais que uma conseqüência do ontem, a causa do amanha. Digo que me dói saber que para mudar terei que abrir mão do que já tenho. Se o adeus não será mais literário, é porque a vida é uma partida. Insistirei em fazer de verbos no futuro uma fonte de nostalgia reversa. Água, leva minha saudade, traz a ansiedade. Sete ondas, o mar me trouxe o futuro. Sete ondas, quem serei.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Romântico.

Voa, vai, e volta. Não me esquece. Promete que vai olhar pro céu onde você for e vai pensar em mim. Jura que não vai achar ninguém mais bela que eu, que não vai achar ninguém mais interessante, que não vai ser interessar. Quando seu coração apertar, pensa que tem alguém te esperando, e pede pra Alguém te proteger. Quando o medo vier, imagina minhas mãos nos teus cabelos, imagina a gente, imagina o mundo, e nós dois. Saber que você agora está mais longe parece ser saber que agora é que você está realmente longe. Meu quarto, vazio, minhas memórias, insuficientes, minhas mãos, vão. E o peito aperta, dói, mas é uma dor tão diferente, essa tal de saudade. Nem sei quando foi a última vez que a senti de verdade, não sei quando ela foi mais do que apenas uma palavra triste. Agora, viva. S-a-u-d-a-de. Sem mais, não há razão pra tristeza, sem menos, não há razão pra só sorrir. Sempre fui indiferente, sem graça, morta, insensível, e agora você me toca assim. Tão longe, tão mais perto do que tantos outros.
Vai, vai sim, e aproveita cada momento. E sente cada cheiro, vê cada caminho, cada chegada. Guarda as fotografias, depois faça-me um relato. Não meça as energias, jogue-as sempre que achar que vale a pena. Mas também não se canse, te quero com todas as suas forças, com todas as minhas forças.
Jamais me imaginei escrevendo algo assim, mas,ou nessas palavras gasto o que sinto, ou no meu travesseiro gastarei. Escrevendo sinto como se pudesse compartilhar minha dor, tão inexistente senão sinônima. Então aqui estão meus mais melancólicos pensamentos, meus mais românticos sentimentos, meu mais escondido eu. Junto com todo o resto que escrevo com tanta voracidade, com tantos gritos, com tantas inverdades, jaz aqui agora, o que em mim há de mais real, de mais assustador, talvez.
Sei que só vou sossegar quando te tiver na distância normal, quando o longe for o longe habitual. Acostumei com a saudade cotidiana, digna de quem tem várias despedidas na memória. Até as suas despedidas tornaram-se cotidianas, e não sei se isso é bom, por reduzir a dificuldade, ou ruim, por torná-lo mais um pra quem dar adeus.
E me vem na cabeça Vinícius, seu contente, de repente sozinho, seu amante, triste, de repente.
Talvez esteja exagerando, fazendo drama demais. Perdoe-me, drama, sou eu. Mas é no mínimo um alívio soltar esse nó que me deixou seu último beijo, nossa última conversa, sempre interminável.
Olha, cá estou eu a falar de você, quem sabe talvez um dia sejamos plenos e eu não mais tenha razão pra falar da saudade. Aliás, pelo que eu escolhi, não tão cedo as despedidas cessarão.
Então vai, e volta. Eu também vou, vou sonhar com você, comigo com você.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Elas.

O que fui fora do que realmente fui era o que fui na verdade. Ou isso fosse apenas o que eu queria ser.
Olhos negros, respiração ofegante, cabelos negros, bagunçados. Linda, sentada na escada com um cigarro entre os dedos. É óbvio que ela sofre, tanto quanto é óbvio que ela não sabe se isso tudo é real. Pessoas a sua volta, beijos, perguntas. O personagem que ela escolheu está expondo-a demais.Parece envergonhada, mas tentadora, desafiante. Ela parece estar tentando achar um chão onde pisar, uma saída, um porto seguro. Ela tem medo. Mas quem sou eu pra falar dela assim, se nela eu eu já me vi?
Grandes olhos verdes, talvez azuis. Cabelos claros, queixo apoiado nas delicadas mãos, altos saltos vermelhos. Ela está cansada, sonolenta, perdida. Não deve aguentar mais aquelas pessoas nojentas, tão loucas, que não param de gritar. Ela é coesa, óbvia, limpa. Acho que ela quer sair daqui, está entediada. Vejo-a me olhar, me estudar, deve estar achando que essa sou eu. Ei, eu juro que sou bem mais. Esse cigarro não é real, esse olhar não é meu. Espera, volta, não me deixa sozinha. Queria ser assim, certa como você.
Tão apavorada, fica calma, não vou a lugar nenhum, gostei de te olhar. Devo estar exagerando, tenho que parar com essa mania de desnudar a todos antes de conhecê-los.
Estou ficando sem graça, não gosto que tirem minha máscara tão rápido. Meus cabelos estão tão desarrumados, estou acabada, não sei por que ela olha pra mim. Tão bela... Se está tão entediada deveria ir embora, vai, não me importo.
Vou embora, acabou minha paciência. Ah, ela. Não posso deixá-la só, tão insegura, tão perdida. Ficarei mais um pouco, adorei seu sorriso falso. Tira esse cigarro da boca, chora, eu sei que você quer chorar.
Que vergonha, eu, boba, chorando na frente dela. Mas é que dói tanto, não suporto. Ela se levantou. Eu também vou.
Entendeu. São mesmo verdes. Um lindo sorriso, mais belas lágrimas. Me abraça. Eu sei.Cheiro de c.h. Cheiro de v.i. Forte, me abraça forte, não minha deixa sozinha. Vou ficar aqui, com você. Chega, chega, nem sei quem você é. Espera, você não está bem. Nem nunca estarei. Tudo bem, adeus.
O que fui fora do que realmente fui era o que fui na verdade. Ou isso fosse apenas o que eu queria ser.

domingo, 14 de dezembro de 2008

(des) interessante.

Seu cheiro? Não, não, estou enlouquecendo. Hoje é mais um dia em que eu não sei de nada, estou em cima do muro, olhando o mundo de longe, sem esperança de participar da vida. Nem lá, nem cá. Estou em tantos lugares... Minha cabeça fica aqui, descansando, pedindo arrego, não aguenta mais pensar no que não quer. Meu coração vai longe, uns 3 mil km, talvez. Meu coração não vai só lá, ele vai lá, pega alguém e parte pra outro lugar. Estive pensando nessa minha última vinda, na última vez em que eu voltaria para uma casa nos moldes burgueses, com pai, mãe, irmãos. A partir de agora minha casa será outra, a volta será sempre indefinida, meu coração vai esfriar. Esfriar? Não, ele vai ser mais sensível a todas essas paixões, a todos esses lugares. Meu pai me perguntou onde eu morarei, disse que eu tenho que ter pra onde voltar, não sei. Sabe que eu não sei. O importante é que eu vou. E daqui a uns 4 ou 5 anos eu vou de novo, pra outro lugar. E então o mundo será minha casa, o Brasil meu quintal. Que triste, que poético, que decidida. Quero representar minha nação e mostrar meu orgulho por ser brasileira. Enrolação. Quero sair por aí e fazer algo importante, ajudar, servir, a quem quer que seja, que seja por uma razão. Isso, exatamente, busco uma causa, uma razão pra defender. Minha razão agora é chegar onde quero, conseguir, conquistar. Independente do que vou deixar para trás, não vou parar de tentar. Duvido que essa ainda seja minha convicção quando o adeus for mais longo, quando a saudade for maior, quando a solidão pesar.Do que eu começei falando mesmo? Ah, sim, sim. Você, que já não é o você de outrora, é algo mais real, mais, mais, mais.... Possível. Você é assim, tão perto de mim (tão longe...), tão delicioso é tudo o que temos. E agora que ficarás ainda mais longe, por pouco tempo, quero apenas que não esqueca de mim. Cresci criando a teoria de quem fica, de quem vai. Aquele que fica é o que sofre, o que sente o tédio, o que se vê esquecido. O que vai sempre encontra uma mudança no seu destino que sempre o faz feliz, ou ao menos diferente, e sempre o faz, se não esquecer, esfriar a paixão pelo que ficou. Ir, ficar, estar. Verbos lindos, tão difíceis de serem entendidos. Ter, já mais maleável, talvez cause mais palpitação do que o estar, tão constante que acostuma-se.Aqui estou eu novamente, falando do não ter o que falar. Sei que vou apagar o que escrevo, pena que essa tela não é um papel que eu possa veementemente amassar e arremessar no esquecimento. Minha vida é tão (des) interessante que eu me perco em palavras pouco sutis, amenas, sem sal. Gastei minhas melhores palavras com o seu bilhete, foram bem gastas. Prefiro sua leitura a leitura daqueles desconhecidos que me vêm importunar. Aliás, prefiro sua leitura à leitura daquele que adora me irritar. Tão longe...

Por enquanto.

Última vez que volto pra casa. Casa? O asfalto vai ficando pra trás, correndo sob meus olhos, meu pensamento voa. Que subida leve, deliciosa. Tudo vai diminuindo, tanto quanto sua presença vai virando lembrança. Tantas nunvens, não vejo o céu, não vejo a terra. Pergunto-me então o que tem lá em cima. Engraçado como não me canso de repetir essa pergunta, em todas as idas, todas as voltas, todos os caminhos, o que será que há lá? Queria hoje mergulhar nesse mar de estrelas, mas a noite não está limpa, nem se vê a lua. Curioso, ao meu lado há um homem que também escreve, uma caneta, um bloquinho. Será que ele tambem fala do céu, tão vago assunto? Queria saber o que ele tanto escreve, roubar um pensamento, ele parece ter boas idéias. Uma cidade surge, estamos voando tão baixo. Quando eu era criança preferia viajar durante o dia, acreditava que veria um anjo nessas nuvens, adorava passar por dentro delas. Era maravilhosa a sensação de ver tudo branco, sem saber o que encontraria pela frente, tendo algo no que acreditar. Hoje prefiro a noite. Mais me encantam as estrelas e o tom indefinido do negro céu do que os anjos. Sinto-me mais perto de Deus, talvez até próxima dEle, olhando o mundo por um ângulo próximo do que Ele vê. Aliás, é nesse momento que mais tenho fé, não é possível que isso tudo seja uma mera coincidência, na verdade nada disso faz sentido. Hoje tento não dar atenção aos meus dilemas, não quero falar da vida, não quero falar de amor. Quero apenas jogar aqui belas palavras, dizer coisas que façam sentido, mostrar minha paz, apesar de tudo. Sempre imaginei como seria esse momento. A próxima vez é diferente, o adeus será para outros, chorarei. Partir agora é fácil, na próxima vez em que aqui estarei, o peito vai apertar, a saudade vai crescer e eu vou finalmente sentir o que é deixar tudo isso pra trás. A próxima vez, não digo que será pra sempre, mas será apenas ida, não marcarei a volta. Estarei lendo cartas, ouvindo música, sofrendo quietinha, fechando mais uma caixinha. Última vez que estou voltando pra casa. Qual casa?

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Tantos títulos.

Uma estante na minha frente. Não, várias estantes, prateleiras, capas. Tanta coisa já foi escrita, jamais lerei metade. Imagino quanta criatividade há, quanto mais ainda pode ser escrito. Será que o que agora escrevo não já foi dito antes? Talvez sim, espero que não.Sempre que entro em uma livraria meus olhos querem chorar. Fico horrorizada com a minha incapacidade de ler, com a minha pouca habilidade de devorar tudo aquilo. Sou uma inútil, penso. Nem mesmo li uma livraria inteira e já me aventuro em decifrar o mundo. Presunção. Hoje pensei se algum dia seria lida, se aquele título estampado já foi um dia imaginação. Engraçado quando alguem próximo a você é publicado. Espero que o leiam, penso. Penso tanto, por isso não escrevo. Se cada pensamento meu se transformasse num texto, reescreveria aquela livraria inteira. Dá um medo pensar nisso tudo. Chega. Olho pra prateleira a minha frente, tantos nomes, tantas cores. Cada livro traz um assunto, ou falam todos da mesma coisa?Nossas vidas expostas ali, jogadas, cuspidas por um alguem que se achou no direito de fazê-lo, só por que era criativo. Grande coisa, criatividade. "Na natureza nada se cria, tudo se copia." O que seria um livro se não uma cópia do que já foi pensado? Acho que estou perdendo a cabeça, o João Ubaldo Ribeiro continua olhando pra mim e eu aqui, devaneando. Tantas palavras em vão, algumas se preocupam em revelar a vida hollywoodiana, outras, o mais intrínseco desejo de poder, de sedução. Quantas palavras em vão, quanta bobagem. E eu aqui, devaneando. Olho para os lados, olhares curiosos, confiantes. Há aqueles que preferem achar que já leram muito, se sentem menos incompletos. Mas é falsidade, prefiro viver no vazio da realidade. Eu gosto de passar meus dedos entre as páginas dos livros, sinto um prazer enorme. Parece que estou podendo degustar um pouco daquilo que jamais terei, é mais um joguinho. Sinto as capas, grandes, pequenas, coloridas, sem graça. A capa muitas vezes é o que me atrai, claro, é assim o ser humano. Por que será que toda livraria blockbuster tem hoje um café? Os cultos seres que as habitam precisam mostrar aos outros quem são, o que fazem. De nada adiantaria ser culto pra si mesmo, eles gostam de exibir seu poderio intelectual. Café e livros, uma boa dupla, na maioria das vezes, surreal. Quem mais toma café não são os nobres leitores de Nietzsche, são os trabalhadores da construção ao lado, que jamais ouvirão falar em psicanálise (tão mesquinha), quem dirá em Nietzsche. Enfim, estão me chamando, não levei nenhum livro. Levei apenas uma lembrança dessa prateleira, já sei o que vou pedir de natal. Livros, um dia ainda escreverei o meu. Serei então devorada por olhos ávidos por vida, em estantes alheias a mim.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Sem Assunto.

Eu não sou mais. Epifania.Não sei o que deixei de ser, nem sei o que era antes. Meu braço está arranhado, me machuquei. E dessa vez sou uma mulher. Finalmente o sou.Onde estou, o que será que fiz? Fantasmas ao meu redor, medo do que passou. Angústia. Não choro, não sou do tipo que chora.Como uma nuvem que paira, não descarrego.Meu cabelo não está arrumado, não ligo. O vento que à noite me assusta, agora vem pra me dizer que não estou sozinha. Sinceramente, não sei do que estou falando. A sala está vazia. Olho pra frente, não há. Cadeiras vazias, todos foram embora. Estou te esperando, estou me esperando voltar.Essas paredes guardam minhas palavras, aquelas que jamais foram ditas. Guardam beijos que dei, abraços que distribuí, tantas lágrimas que prendi.Um pedaço de mim fica, maior do que o que daqui levo.Coração vomitado, tudo proibido, tirado. São tantos os vocês, tantos sim, duros não.Para ser coerente utilizo a incoerência, a falta de uma idéia central.Tão difícil escrever, quem lê não sabe qual o contexto do que te rege. Dói. Estar sentada aqui dói. Não poder voltar no tempo e fazer o que eu realmente deveria ter feito, dói.Te deixei ir, fui.
Um menino veio me perguntar se eu estava bem. Estou. Desculpe a intromissão, esse livro, já leu O mundo de Sofia? Já. Desculpe a intromissão, vou indo. Tudo bem.
Tudo bem, chega disso tudo. O que me foi sugado agora me é devolvido e a cor volta à minha face.Não sou mais. E, por isso, agora volto a ser. Alívio.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Texto Pílula, ou, F.

Sentado na varanda olhando o mundo girar. Somo tão inúteis. A vida é tão injusta, me foi dito. Não, ela não é. Eu que não quero me levantar daqui e me permitir a justiça. Estou apenas, vendo você ir embora. Se o que derramo são lágrimas, não sei por que choro. Você era tão linda, tão ausente. Lembro-me de quando te vi chegar, tão incerta em seus passos, tão contraditórios seus sorrisos. Mais uma que sabe bem o que quer, só não sabe por que. Foi embora. E voltou. E foi embora. Voltou. Foi... Espera, pára. E eu? Continuo. Cansei de dar adeus, mas ainda a beijo quando a vejo dá-lo. Outro dia a vi com outro. Pensei: bobo, mais um joguinho. Droga, acabou a rodada. Pra posição da qual saí, eu retorno. Ela já ganhou há tempos, não sei porque continua jogando. Dos meus devaneios me despeço e pego meu violão.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Metaphysical Nausea.

E sentir o peso em meus ombros. Sentir que deve-se saber falhar, que deve-se aprender a perder. Nem tudo está sob o seu controle e, cada vez mais, o mundo não fará sua vontade.Vejo que não sou mais do que apenas sou, que nem tudo é tão verdade, que a dor é pequena. Sabe, lembro-me de quando era pequeno e todos se derretiam quando me viam sorrir, meu sorriso era minha barganha. Não que o tenha perdido, jamais, mas ele já não exerce efeito nenhum. Sou apenas mais um bobo sorrindo em meio a multidões e que, sem enxergar a dor do outro, sorri dizendo que sabe superar a sua. Aliás, lembrando-me da minha não tão distante infância, percebo o quanto perdi. Deixei de lado aquela constante felicidade (sabendo que dizer isso é redundante, se é feliz...) e vivo apenas momentaneamente alegre. A felicidade vem em ondas, uma vez me disseram, mas a tristeza é que é ondulatória, vem derrubar a alegria e quando consegue, é difícil ressuscitá-la.Sei que escrevo com ar de quem tem uma vida horrível, sei também que não passo de um presunçoso.Minha vida é fácil. Rio. Tão poucos obstáculos, tão pouca necessidade. Mas, vazio, um vazio.E esse eu não consigo preencher, nem mesmo destampar para então procurar o que deve ser posto ali.São tantas as procuras, tão efêmeros são os encontros. A vida segue, assim, incompleta, mas feliz, simplesmente por que não tenho do que me queixar.A alegria me toma, constantemente,e logo se desfaz em uma busca desenfreada e cada vez maior. Desenfreado.Não não tenho freios, apenas não consigo ou gosto de usá-los.
Será que tenho algo para barganhar?Troco favores e não mais sorrisos, troco olhares e não consigo.Não, não, mentira, eu nem sempre consigo o que quero. O que quero é acreditar que sempre consigo o que quero, mas não tem jeito. Eu não consigo.Há tanto que queria poder acreditar... Sempre há, óbvio, mas em mim há mais daquilo que quero acreditar do que eu realmente acredito. No que acredito? Sei, não sei.
Faz tempo que não escrevo. Não esperava escrever algo bom ao voltar. Queria ter tempo pra escrever, e escrever, deixar meus dedos soletrarem minha imaginação.
Vejam como sou louco, até saudade do que nem escrevo eu sinto. E sinto muito.

sábado, 18 de outubro de 2008

A320.

Lá fora o sol se põe. A dez mil metros, tenho o mundo sob meus pés, mas desconheço tudo o que sob eles acontece. Aqui dentro há apenas um pouco de vida, uma amostra da humanidade. Mulheres, crianças, homens, cada um deixando um pouco do seu passado e destino, podendo mudá-los para sempre. Quem sabe se nós estaremos vivos amanhã? Talvez forme-se um casal, talvez alguém arrependa-se de ter partido, talvez alguém jamais queira voltar. Compartilhamos essas horas, temos, por um curto tempo, a mesma sorte, o mesmo destino.Aqui não há pátria, não há lei, há apenas o que nós queremos que haja. Eu, nessa inércia inevitável de quem sempre vai, observo os olhares e gestos. Penso no que pode acontecer com esse pedaço de mundo. Estar aqui é como não estar em lugar nenhum, mas estar em todos os lugares.Não se é, apenas se foi e se será. O caminho nos é comum, mas o que é esse caminho se não ansiedade?
Lá embaixo a cidade começa a exibir suas permanentes luzes. Vai chegando o fim da transição, vai crescendo a ansiedade para então tornar-se de alegria, explosão. Enquanto nosso mundo vai tornando-se restrito, nossos pés vão querendo andar sob o que foi visto lá de cima. Na terra entramos no turbilhão do qual saímos e a vida não mais continua, ela permanece.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Contracapa.

Às vezes acho que você deve desejar viver tudo o que você leu. Vagueio sempre na sensação de que você deve querer largar essa vida cinzenta e se aventurar por aí. Eu tenho uma vontade imensa de viver. Não mastigo cautelosamente antes de engolir os momentos. Mas, o mal que me faz, pouco me importa. Há uma nostalgia constante naquilo que ainda não vivi e, por não conhecer, amo. Acho que li demais. Cismei que você é mais um personagem, tens algo de H.H. Mas serei eu narradora personagem?
Os filmes, esses já não me encantam mais. Andam tão banais, tão realizáveis que perderam todo o mistério.Os livros, tenho certeza de que tudo o que foi escrito ainda há de acontecer, mas a improbabilidade de tal acontecimento é o que faz querer ler mais. Iludo-me?
Escrevo no escuro, não vejo minhas palavras, mas assim é a vida, uma notícia, não História. Suspiro a espera do príncipe, mas antes que ele chegue eu mudo do romance para o suspense e o troco por um sapo misterioso.Li pouco, ainda não sei bem quem és.Andei pensando em você, escrevendo um romance que jamais sairá da minha cabeça.Tento entender o porque de tantas voltas quando se pode chegar logo ao clímax. Sei apenas que quero escrever tudo o que viverei, para então ler tudo o que vivi. Meu mundo é este, mas esse não o é.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Desvio de senso crítico.

Queria escrever sobre mim. Queria ser a narradora dos meus textos, o eu-lírico de cada palavra, mas não sei fazer isso. Talvez eu seja simples demais e não tenha nada a dizer. A verdade é que sou tantas que não consigo escolher qual ser. Tento agora, inutilmente, falar de mim.
Sabe, ela é meio louca. Vive falando sozinha, é exagerada, não entendo.
Ela é a mulher de um traficante, não, uma missionária evangélica. Pensando bem, acho que é uma garotinha inocente, ou seria uma cartomante?
Tentou ser tudo o que quiseram que ela fosse, fez caras e bocas, se pintou e saiu pro mundo.Ela é do mundo, e ele é dela. Cada canto esconde um sorriso e uma lágrima que ela riu.Todas as lembranças, todas as memórias, nada é mais real, ela vive delas. As paixões que teve, os amigos que pouco conheceu, foi tudo tão efêmero e pouco ficou. O amor que sentiu e os amigos que abraçou, guardou-os todos e com eles vive.
Ela não é muito normal, mas qual a graça de sê-lo?
Diria o Chico que Ela nunca será de ninguém porém eu não sei viver sem, e fim.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Hall de caminhos.

Ela estava de preto. Sentada, de pernas cruzadas, brincava com uma caneta entre os dedos e me olhava fixamente.Seus cabelos eram ruivos e contrastavam com o branco inocente de sua pele.Ela era linda, uma pergunta sem resposta. Meus olhos estudavam cada detalhe de seu corpo, e a cada segundo eu descobria algo novo. Uma tatuagem no pescoço, um anel no polegar, uma cicatriz na coxa. Eu, encantado, decidi que ali ficaria pelo resto da noite, ou até mesmo da eternidade.
Eu estava cansado, havia, como sempre, trabalhado demais, achado soluções demais para problemas que não eram meus. Minha camisa já estava desarrumada, um botão a mais aberto. A gravata já fugia do corpo.Pensava que talvez fosse hora de me arriscar tanto quanto eu tinha medo de fazer até aquela noite. Depois de analisar minuciosamente aquela sedutora interrogação sentada à minha frente, resolvi aproximar-me.
Ao ver meus incertos passos ela abaixou o olhar e assim permaneceu.Cessei meu caminhar, talvez fosse muito cedo para abordá-la. Desviei o caminho e fui até o bar, de onde observava-a curvada e imóvel.Muito passou pela minha cabeça, pensei tê-la assustado, pensei ter sido precipitado, pensei ter sido agressivo.
Quando esqueci que ela ainda estava ali, fui surpreendido por seu rosto próximo ao meu. Sua maquiagem estava borrada, ela havia chorado. Encostou seus lábios em minha orelha e pediu-me desculpas, deixando-me só antes que eu pudesse questioná-la.Vi-a ir em péssima hora com passos apressados e firmes sob finos saltos. Ela deixou o hotel e sumiu em meio a chuva e a escuridão.
Não sei por que ela fugiu, com certeza por trás daqueles penetrantes olhos negros havia uma vida complicada, desconhecida. Ela deve ter vivido, diferente de mim. Minha monótona e incansável vida esbarra sempre em mulheres assim, cheias de perguntas para mim. Elas não apenas carregam histórias, mas carregam tudo o que me faz pensar em suas histórias. Elas me trazem sempre novidades de passados que ainda não vivi. E isso é delicioso.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Humanas.

Bocas, quantas bocas. Tantas palavras inúteis, desperdiçadas. Em minha cabeça as mesmas palavras se remendam, entrelaçam-se e se desfazem. Procuram um sentido e não o acham, preferem permanecer em sua vastidão ilógica. Lógico é o que sinto, confusa é a irracional razão que me afoga. Não entendo, mas ouço vozes, palavras, palavras, palavras...
Sozinha fico perdida numa mistura desinteressante de seres. Seres falantes, gritantes, exageradamente extremos.Nem sei mais por que escrevo, não sei como conecto tais letras e consigo vomitar palavras certas. Obrigada pela falta de ordem, assim faz mais sentido. Sabe-se lá o que eles querem dizer, eu prefiro calar tudo o que me atormenta. Uma confusão, profusão de gritos tresloucados. Quanto a mim, já não sei o que quero saber, não sei ser mais quem sei saber ser. Calem- se por favor, me deixem em paz, deixem minha mente gritar e sufocar esses barulhos insuportáveis que suas bocas deixam escapar.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Próximo segundo:

Ansiedade.

É passado isso aqui, mas é que eu preciso registrar que tem uma vida minha de amores e amigos nos comentários desse blog, tanto quanto em tudo o que eu escrevi. Estou impressionada...

Van Gogh ou Il n'y a plus rien.

Vejo pedras no chão.Elas tentam me derrubar. Minhas mãos estão molhadas e borradas de preto, meu rosto encontra-se nelas, não sou capaz de gerar mais nenhuma expressão.Vejo pessoas falando, gritando, gemendo.Não as vejo nítidas, elas são apenas vultos.A luz amarela da rua me deixa tonta, estou vacilante e incerta em meu passo.O céu continua estrelado como se não se importasse com o horror do que vê. Há mulheres sujas nos cantos, homens bêbados nas esquinas e há Eu.Eu que não sei como vim parar aqui.
Meu vestido vermelho apagou-se, está rasgado, amassado. Alguem esteve aqui. Tenho sede, sinto dor.Ouço a chuva cair sobre meu peito, seu barulho dói.Vejo na calçada um vermelho que não está em mim, mas está porém, tão violado quanto o meu. É uma rosa, morta. Houve uma vida nela, houve uma vida em mim. Sinto pena dela, tão quieta em sua solidão sem brilho.Ela sabe que a toco, sei que ela sente meu toque. Diferentemente da rosa, não é o mundo que quer me derrubar, fui eu quem se jogou no chão. A culpa é minha, só minha.Encontrei o mal que procurei e não sei mais esconder.
Decidi que aqui imortalizo-me como a rosa imortalizou-se em seu vermelho doce. Nessas ruas vazias de verdade o rio é o único que segue um rumo. Ao rumo me entrego e termino por aqui.

Lamarckismo.

Transformo esse desejo em palavras que aliviem a obsessão. Escrevo agora, não gasto grafite em letras perdidas e palavras desconexas que me vêm a mão quando mais te quero. Agora, nem sei quem és. Carrego o peso do teu impuro perfume em meu peito desesperado por sentir-te. Confesso para que saibas o quão absurda é essa anormal fixação. Ao leres essa entrega, logo saberás que é a você que me refiro. À você, o tão proibido você.
Ver meu vestido vermelho em tuas mãos é a única coisa capaz de saciar minha vontade, ou não. Por ti sinto sinto desprezo, sinto nojo, tenho horror, mas hei de transformar tudo o que sinto em um objetivo, ou melhor, um objeto. Exponho-me para que me cubras com teu pudor, há muito vulnerável. Se é impossível, pouco importa. Quanto mais inalcançável, mais cresce...

sábado, 6 de setembro de 2008

Uma qualquer coisa sobre um alguém.

Era uma tarde amarga. Pela janela gelada eu via a chuva adocicando o mar. Já não via mais o sentido de estar ali, de ser ali. Eu estava cansado, há tempos eu estava cansado. A solidão me rondava, minha única companheira nas atuais multidões. O tempo passara rápido demais, ele escapara das minhas mãos enquanto eu pensava poder ser eterno.
Afogado em minha vaguidão fui de repente salvo por um raio de luz que sugou todo aquele tédio que me afundava. Seus cabelos molhados e longos e seu sorriso interminável me trouxeram à vida e me fizeram voltar a sentir a vontade de ter alguem. Nossos olhares não se cruzaram, o olhar dela penetrou o meu e me fez cegar. Lentamente seus lábios se moviam e ela articulava palavras que eram, para mim, estranhas. Talvez ela estivesse falando de mim, talvez esse fosse apenas meu desejo.
Ela comprou um sorvete, encarou-me com olhos de menina e me mostrou que aquele olhar era apenas um truque... Saiu então do meu destino sabendo que dele jamais faria parte novamente.
Demorei algum tempo para acordar e voltar àquela escuridão sem graça. Nada mudou, ou tudo mudou. O sentido ainda me é estranho, mas é, entretanto, mais esperançoso. Esperança de que algum dia um raio de luz possa realmente me queimar.

Considerações.

Amei-te ontem, amo-te hoje, não sei se te amarei amanhã. Isso é crueldade, eu sei. Mas prefiro a crueldade do que a infidelidade de uma mentira.
Se há um amor eterno haverá muitos dias de não-amor.
A inconstância da minha existência não me deixa amar rotineiramente. Mesmo em uma possibilidade de todos os desejos, eu não saberia viver na realização diária deles.Concluo então que nada me satisfará amanhã, se me satisfez hoje. Nem um alguem igualmente insatisfeito poderia me completar, a inconstância seria pois, constante.
Vivo, então, na angústia da esperança de dias impossivelmente desiguais. Engulo assim, tudo aquilo que momentaneamente me satisfaz, pois, obviamente, nenhum momento é igual ao segundo seguinte.